A Evolução da Pesquisa: Do Processamento à Síntese de Significado
A Inteligência Artificial não está apenas automatizando tarefas; ela está forçando uma redefinição do valor real de um profissional de UX. Enquanto ferramentas como Maze, Dovetail e Outset AI agora realizam o trabalho pesado de coletar dados, transcrever entrevistas e agrupar temas em minutos, surge um novo desafio: o que fazemos com esse volume massivo de informação? Josh LaMar, em sua análise sobre a evolução das ferramentas de pesquisa, argumenta que a automação está transformando a coleta de dados em uma commodity — algo acessível e padronizado — o que exige que o pesquisador migre para a ‘criação de sentido’.
“A parte difícil é fazer sentido do que você encontra no contexto de um negócio que tem política, restrições, prioridades conflitantes e clientes que dizem uma coisa e fazem outra.” – Josh LaMar
Para navegar nesta transição, o pesquisador humano deve focar em competências que os modelos de linguagem (LLMs) ainda não conseguem emular com precisão. Estas habilidades tornam-se o novo diferencial competitivo:
- Síntese Estratégica Transversal: A capacidade de conectar os desejos do usuário não apenas ao design, mas à viabilidade do negócio e ao cenário competitivo, gerando recomendações que sobrevivam à dinâmica organizacional.
- Gestão de Stakeholders e Confiança: O trabalho de ‘vender’ uma ideia, navegar por políticas internas e comunicar insights desconfortáveis exige uma inteligência emocional e uma credibilidade que algoritmos não possuem.
- Sensibilidade Cultural e Nuances Locais: Compreender subtextos culturais e variações regulatórias específicas que muitas vezes são perdidas em treinamentos de modelos globais de IA.
- Curadoria de Decisões Éticas: Atuar como consultor sobre onde a IA deve ou não intervir, garantindo que a tecnologia amplie a autonomia do usuário em vez de apenas otimizar métricas de conversão.
Liderança de Design e o ‘Trabalho de 80%’: O Fim da Justificação Manual?
Vlad Derdeicea aponta uma métrica reveladora para líderes de design: a maior parte da jornada de liderança é consumida por comunicação, alinhamento e justificação — o chamado ‘trabalho de 80%’. A IA surge como uma aliada para reduzir essa carga administrativa, permitindo que o líder foque no julgamento crítico. Um exemplo notável é o uso de ferramentas para ‘vibe coding’ — um termo que descreve o processo de criar protótipos funcionais rapidamente focando na intenção e no fluxo visual, utilizando IAs generativas como Cursor ou Lovable para escrever o código em tempo real.
Ao adotar essas tecnologias, a liderança de design ganha novos superpoderes operacionais:
- Validação Técnica Precoce: Ao usar o vibe coding para criar provas de conceito rápidas, líderes podem testar a viabilidade de uma ideia com a engenharia antes de comprometer semanas de trabalho da equipe de design.
- Documentação Dinâmica: O uso de IAs para resumir reuniões e gerar histórias de usuário transforma horas de redação técnica em minutos de revisão crítica.
O valor do líder, portanto, deixa de ser a supervisão de entregáveis e passa a ser a curadoria dos resultados gerados pela IA e o coaching estratégico das equipes.
Consultoria e o Valor da Verdade no Excesso de Dados
Mesmo com o acesso democrático às ferramentas de IA, clientes de consultoria de UX continuam buscando o mesmo pilar: o julgamento humano. Anna Kaley, do Nielsen Norman Group, destaca que o rigor metodológico e a capacidade de questionar suposições são mais valiosos agora do que nunca. A IA pode identificar padrões, mas o consultor humano identifica a verdade por trás deles.
Em última análise, a IA não substitui a inteligência humana, mas remove o ruído das tarefas repetitivas. O futuro pertence aos profissionais que utilizam a automação como um trampolim para o pensamento crítico, a empatia profunda e a tomada de decisões éticas, consolidando-se como arquitetos indispensáveis de experiências que permanecem, essencialmente, humanas.
Fontes e Referências
- LaMar, Josh. “Your research tools got smarter… Did you?” UX Collective, 2024.
- Derdeicea, Vlad. “The 80% job: how design leads are using AI — and it’s not about mockups.” UX Collective, 2024.
- Kaley, Anna. “What UX Consulting Clients Expect in the Age of AI.” Nielsen Norman Group, 2024.



